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Qualquer que seja um fato ou acontecimento
introduzido em nossa consciência receberá, sempre, uma
maquiagem pessoal oferecido pela afetividade de cada um. Assim sendo,
os fatos de nossa vida serão sempre coloridos pela nossa afetividade,
seja pela Afetividade Básica, seja pela Afetividade Momentânea.
Desta forma, os fatos e acontecimentos tratados por nossa Afetividade
será chamado de Vivência, portanto, de caráter individual
e particular a cada um de nós e de acordo com as particularidades
de nossos traços afetivos. O fato pode ser o mesmo, a Vivência
porém, será sempre diferente.
Tais Vivências são sempre capazes de determinar uma resposta
emocional na pessoa, tal como alérgeno é capaz de determinar
uma resposta imunológica. A este sentimento produzido pela Vivência
podemos chamar de "Reação Vivencial", tal como
chamaríamos de reação alérgica as manifestações
determinadas pelo embate alérgeno-imunidade. Para que uma Reação
Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda ter 3 elementos:
1. uma relação causal;
2. uma relação proporcional;
3. uma relação temporal.
Dentro da complexidade do ser humano, nem
sempre uma ação determina uma reação previsível
e pré-estabelecida. Cada pessoa pode manifestar uma sensibilidade
individual aos fatos em geral, portanto à vida e será
sempre sua personalidade (depositária que é de sua afetividade),
quem modelará suas reações desta ou daquela maneira.
Para bem compreendermos nosso próximo, é indispensável
a idéia dele reagir exclusivamente à sua maneira diante
dos fatos, aos quais, normalmente, podemos reagir diferentemente.
Kurt Schneider coloca as Reações Vivenciais Anormais,
ou seja, aquelas que contrariam uma das 3 regras citadas acima, como
"Maneiras Neuróticas" de responder às vivências.
Portanto, Reações Vivenciais que aparecem sem uma causa
desencadeante, que determinem sentimentos desproporcionais às
causas ou que não tenham relação temporal com a
causa seriam Reações Vivenciais Anormais.
Também Henri Ey se refere às Reações Neuróticas
como maneiras anormais de se responder às vivências, como
uma desproporção entre causas e efeitos. Kolb trata as
neuroses com a denominação de "Reações
Neuróticas", cuja descrição se encaixa bem
nas Reações Vivenciais Anormais. Para ele, seriam as Reações
Ansiosas, Reações Histéricas, e assim por diante,
sinônimos de Neurose de Ansiedade, Neurose Histérica, etc.
Além das Reações Vivenciais responderem à
vivências exteriores ao sujeito, ou seja, à fatos proporcionados
pela sua vida ou seu destino, existem também sentimentos determinados
por reações à Vivências Interiores, não
facilmente detectadas por um observador comum. Neste caso, falamos em
"Conflitos Íntimos". Estes, são reflexos de
desarmonias interiores produzidas por tensões que envolvem situações
instintivas, concepções éticas, paixões
e sentimentos mais complicados, ou seja, reações determinadas
pela força dos conflitos. Muitas vezes, estes conflitos íntimos
têm origem em vivências exteriores acontecidas em algum
lugar do passado mas, atualmente, pertencendo ao patrimônio da
consciência ou do inconsciente.
A idéia de conflito é melhor entendida como sendo a sensação
subjetiva (consciente ou não) da contraposição
entre três elementos cognitivos íntimos: o que o sujeito
quer, o que o sujeito deve e o que o sujeito consegue. Freqüentemente
nem tudo o que a pessoa quer, de fato, ela deve, nem sempre o que deve
ela quer, e nem sempre o que deve e quer ela consegue. Como se vê,
são muitas as combinações entre esses três
elementos.
Havendo conflito, forçosamente este produzirá uma sensação
de angústia. Sendo o conflito universal e fisiológico,
depreende-se haver igualmente uma espécie de angústia
universal e fisiológica. Assim sendo, podemos chamar esta angústia
que todos sentimos de "Angústia Vivencial" ou "Angústia
Existencial".
Pelo pensamento existencialista, estar vivo remete-nos diretamente à
outra questão: o poder ser. Ou seja, a existência humana
gira sempre em torno de possibilidades, quaisquer que sejam elas, mas
sempre despertando sentimentos de angústia diante do conflito
da escolha. Portanto, não nos interessa mais, do ponto de vista
clínico, saber se alguém tem ou não conflito ou,
por outro lado, se tem ou não Angústia; está implícito
que todos temos. O que de fato interessa, é saber se esse conflito
ou essa angústia é suportada satisfatoriamente ou não.
No caso de ser satisfatoriamente suportada ou, no caso desse conflito
não implicar em sofrimento, falamos na Angústia Existencial
(ou Vivencial) e, caso contrário, havendo dor e sofrimento, em
Angústia Patológica ou Angústia Neurótica.
O valor emocional que atribuímos à nossos conflito depende
sempre da tonalidade afetiva de cada um. É por causa dessa singularidade
afetiva das pessoas que muitos conflitos de conteúdo semelhante
desempenham diferentes reações em diferentes pessoas.
Cada qual tem uma sensibilidade afetiva ao seu conflito. Dependendo
da Tonalidade Afetiva de cada um, esta angústia pode se apresentar
num grau mais leve, a "Angústia Vital ou Existencial",
como vimos, até graus mais profundos e sofríveis, como
é o caso da "Angústia Neurótica".
Pois bem, a angústia neurótica não deixa de ser
uma maneira anormal de reação (vivencial) diante da vida.
A partir desta maneira anormal de reagir à vida, em sua mais
abrangente amplitude, todos acontecimentos passam a ser inadequadamente
representados e valorizados, consequentemente determinando freqüentes
Reações Vivenciais Anormais.
Seguindo este raciocínio, concluímos que a Reação
Vivencial Anormal pode aparecer paroxísticamente no curso da
vida de uma pessoa, digamos, normal afetivamente, mediante oscilações
de sua Afetividade Momentânea, dando vazão a lapsos de
exaltação de sua Angústia Vital. De outra forma,
essas Reações Vivenciais Anormais podem fazer parte da
natureza da pessoa, ou seja, uma maneira crônica de ser. Isso
se trataria de uma modalidade de viver, reagindo à vida de anormalmente
ou neuroticamente. Daí a afirmação de Henri Ey
que o indivíduo "não está" neurótico,
mas que ele "é" um neurótico, controlado ou
em crise.
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BALLONE, G J - Neuroses, in. PsqWeb, programa de Psiquiatria Clínica
na Internet,
http://meusite.osit.com.br/ballone/
Campinas, SP, 1999.
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